sexta-feira, 1 de junho de 2018

Saiba tudo sobre o actor Manuel Teixeira "O Avó N`gola"

 
                    INTRODUÇÃO

O presente trabalho é fruto de um sonho enraizado desde os primórdios da minha carreira como actor, simplesmente acasalou com a oportunidade dourada que me foi incumbida de fazê-la.
O outro lado de Manuel Teixeira, “O avó N`gola” é o tema de abordagem dessa dissertação. Uma dos motivos que me levou a escolher este actor é a sua personalidade tão emblemática e o rasgo emotivo deixado pelo seu personagem (Avó Ngola) que define a característica da sua poética estético-artístico. O outro motivo é a necessidade do reconhecimento e “homenagem” a este magnífico actor.
O trabalho basear-se-á em entrevista directa feita ao artista. O trabalho está composto por três capítulos subdivididos por temas e subtemas. No primeiro capítulo abordarei questões ligadas a vida pessoal do actor, o segundo capítulo focalizei-me na trajectória artística do mesmo, e o terceiro capítulo levantei a questão muito debatida actualmente no seio teatral: o que é necessário fazer para se ter uma vida artística profissional em Angola, e viver totalmente da arte sem qualquer outra fonte de receita, tal como é o caso do nosso protagonista em estudo.
O mais interessante é que essa necessidade se manifestou por si só no decorrer do aprofundamento da actualidade do conceito de “actor profissional”. Pois, mesmo não tendo uma formação acadêmica é um profissional pela vasta experiência e poética que obteve ao longo dos anos. Daí vem a objetivação do desse trabalho.
O objetivo desta pesquisa vem de um anseio da compreensão do modo como podemos identificar parâmetros para um melhor entendimento do que é ser ator profissional em Angola através da vida e obra dessa figura tão carismática do teatro angolano.

1.    A JORNADA DE UMA HISTÓRIA

Muitos conhecem o seu inconfundível rosto, muitos reconhecem de longe a poética da sua voz, mas nem todos conhecem de facto quem é, e o outro lado desta emblemática figura com mais de 25 anos de carreira artística dedicada em prol do teatro angolano.
Quem não o conhece? Muitos de nós, hoje actores, crescemos vendo os feitos dessa figura tão inspiradora e motivadora, com um talento único, reconhecível e “invejável” no bom sentido, claro.
O meu interesse em biografar a sua vida começou no ano de 2014 onde tive a honra de participar da segunda edição do Festival Nacional de Cultura e Artes (FENACULT), onde tive a honra de ser convidado a fazer parte da obra teatral do grupo JULU, intitulado Mpambo ya Njila (encruzilhada). Confesso que foi o realizar de um sonho e como se não bastasse interpretei três personagens na mesma obra, um dos quais foi o personagem de tio dessa grande estrela do teatro angolano. Foi nesse exato momento que tive o primeiro contacto com ele, mal me contia. Passeando com o grupo JULU, nas ruas de Lobito por um instante senti-me numa “estrela”. Afinal de contas quem é o Manuel Teixeira? Como conseguiu conquistar o coração de milhares de angolanos com os seus personagens? Qual é o segredo da sua poética?
Manuel Alves Teixeira, Nascido aos 2 de Novembro de 1965 na província de Luanda, no município do Rangel, as ruas do bairro Marçal viu-o crescer. É o primeiro de cinco irmãos. Filho de pais de origem de Kwanza Sul nomeadamente António Alves Teixeira e de Conceição Manuel Rocha, o kimbundo é a sua língua materna que na qual determinou marcantemente na sua estética. Hoje, é casado e pai de cinco filhos tendo já até agora duas netas. Concluiu o ensino pré-universitário no Puniv de Luanda. Em 1983 ingressou para as fileiras das Forças Armadas, na 7ª Região Waku Kungu.
Nunca fez teatro dentro das forças Armadas. Dentro da brigada desempenhou as funções de Logístico do batalhão, e depois exerceu a função de administração no Departamento Geral na Direção Política Nacional das FAPLA até 1992. Nesse mesmo ano começa a sua aventura no teatro profissionalmente falando, passando anos depois a auferir um salário fruto do seu trabalho.
2.    CARREIRA ARTÍSTICA E PROFISSIONAL

Nunca passou pela sua cabeça fazer um dia teatro, tal como qualquer jovem Manuel Teixeira tinha outros sonhos longe do teatro. Na linhagem de sua família nunca se teve registo de alguém que fez teatro, ou seja, era o único de sua família que embarcou nessa árdua aventura dos palcos. Sem pensar fazer teatro até porque o mesmo achava-se tímido e sem nenhuma habilidade para representar.
Eu sou uma pessoa tímida e era muito tímido ainda o teatro ajudou-me a sair da timidez” argumentou em entrevista. O tempo foi passando até que um dia eis que um “anjo” enviado por Deus caiu dos céus de nome Aurora Canale e convidou o mesmo a fazer teatro no grupo da Igreja.
Graças a irmã Aurora Canale, madre de origem espanhola, missionária franciscana de Maria, me incentivou e me puxou a entrar no teatro, mesmo contra a minha resistência” salientou o Manuel Teixeira durante a entrevista.
Algo interessante saiu da sua boca durante a entrevista, me chamou atenção de imediato quando o entrevistava que decidi transcrever a frase completa dita pelo entrevistado:
“Deus me deu o dom de ser actor, a irmã Aurora Canale despertou em mim esse dom e o Mateus Lourenço aperfeiçoou-me”.
O seu primeiro personagem foi de garçon, atendendo em bar e sem nenhuma fala em 1983. Mas neste mesmo ano interrompeu a sua carreira entrando para as forças armadas na qual permaneceu durante 7 anos.
O grupo de teatro JULU, criado no período das eleições em 1992, catapultou e alavancou a sua carreira artística e profissional. Fruto desse trabalho realizado antes, durante e após as primeiras eleições gerais em Angola começou a primeira parceria com a Televisão Pública de Angola com gravações de historietas denominado “Histórias Nossas”. Um ano depois, em 1993, o talento do grupo foi visto e reconhecido por muitos, a exemplo disso foi a parceria com a UNICEF que perdurou até 2007.
A sua poética está estritamente ligada com a sua grande paixão que é o teatro comunitário de intervenção. Esta forma de representação “é o que me identifica” realçou.
Já participou em várias formações de teatro durante a sua carreira nomeadamente a formação de teatro comunitário para o desenvolvimento, patrocinado pela UNICEF, curso de interpretação com o luso angolano Rogério, curso de teatro comunitário e Marionetes com duas professoras israelitas, Naomi Yoeli e Miriam Peeri, e tantos outros afinal são mais de 25 anos dedicados ao teatro.  Sempre representou com o Julu, uma das poucas experiências que teve fora do mesmo foi com a fundação FUNDANGA, com a obra que retratava “o processo 50”, na qual representou um dos presos político de uma história marcada com sangue de bravos homens que lutaram em prol da independência de Angola.
Em angola, já representou em várias províncias e tem participado de uma forma constante em vários festivais organizados por grupos teatrais, Ministério da Cultura, organizações teatrais nomeadamente no Festival de Teatro do Cazenga (FESTECA), Festival de Teatro da Paz (FESTEAPAZ), Circuito Internacional de Teatro (CIT), Angola independente (Atos e cenas), entre outros. Para além das suas participações nacionais Manuel Teixeira já representou Angola em festivais internacionais como por exemplo: Festival Internacional de Teatro do Congo (RDC), na primeira bienal dos jovens criadores da CPLP (Cabo Verde) e em campanhas publicitárias gravadas em Portugal.
Fruto desse árduo trabalho Manuel Teixeira já foi homenageado, um desses tributos foi feito na 7ª Edição do FESTECA, e já arrebatou vários prémios individuais e coletivos com o seu grupo. Dois prémios cidade de Luanda com as obras Avó Mbaxi e a história de Chamavo (na qual interpretou o personagem de Avó Mbaxi) e poeiras das poeiras, prêmio identidade pela SADC e UNAC, e a maior premiação em Angola de artes na categoria de teatro, “O Prémio Nacional de Cultura e Artes (2015) ”.
Não parou por aí, já participou em novelas como: Caminhos Cruzados (na qual interpretou o burlesco personagem de Sanguito), Sede de Viver, Única Mulher, as duas primeiras produzidas pela TPA e a última com produção portuguesa.
No cinema também tem o seu registo na participação nos filmes Heroi, O Mbacu, Os Emplastos, este último produzido pela Tulane e realizado por Alberto Botelho. Fez um filme internacional realizada por uma equipe italiana, mas até hoje não viu o filme tanto que o mesmo não se lembra até do título.
Na literatura tem a participação na compilação do livro com o título “Manual de Teatro Comunitário” e com Manuel Alves lançaram o livro na “Boca do mas velho” titulo que foi lançado em Kimbundu.
Comediante nato, sem muito esforço naturalmente leva quem o assiste ao delírio, sua voz roca marcante e a padronização das características do seu personagem Avó N`gola determinam a sua poética.
O mesmo não faz parte de nenhuma instituição arte simplesmente como actor do grupo JULU (reconhecido pelo Ministério da Cultura) ocupando o cargo de Secretario de Administração e Finanças é membro da UNAC e da Associação Angolana de Teatro.

3.    A FUNDAÇÃO DO GRUPO JULU

A introdução do teatro em Angola deve-se aos missionários. No interesse de evangelizar o pagão africano e torná-lo filho de Deus, a igreja sempre se serviu de representações religiosas, realizadas em escolas de missionários cristãos pelo país afora. A Igreja teve um papel de relevo no contacto inicial com o teatro, mantendo, na actualidade, esse forte ascendente sob vários grupos teatrais: só em Luanda são mais de cem os grupos criados ligados a Igrejas. O objectivo era ensinar “bons” comportamentos (prevenir o HIV, apelar ao estudo, condenar a violência doméstica, divulgar as tradições), defender valores morais e familiares ou resolver questões existenciais.
A ligação à Igreja tem-se feito sentir desde o tempo colonial durante a qual, se foram desenvolvendo diversas expressões teatrais, tal como, por exemplo, o teatro comunitário por causa da situação política que o país mergulhava. É disso exemplo o grupo teatral JULU que deriva da junção de dois amigos e colegas de teatro falecidos (Julião e Lucas), fundado em 1992 com fortes influência da Paróquia São Domingos da Igreja Católica Nossa Senhora de Fátima.  
Anos depois nas vésperas das primeiras eleições em Angola, numa altura em que o país passava por uma situação de conflito armado, a comissão organizadora solicitou um grupo de teatro para educação cívica eleitoral e um amigo Luis Gonçalves pertencente a outra paróquia, sugeriu que eles formassem um grupo de teatro e assim surgiu, o JULU. Com Mateus Lourenço, Manuel Teixeira, Vado Baptista e o Francisco Isidro como fundadores e sempre sob supervisão da madre Aurora Canale. Com o JULU, nasce assim a lenda do teatro em Angola, que muito fez e tem feito em prol do teatro dando desse modo à Manuel Teixeira um estatuto sublime  e um impacto significativo na vida de milhões de angolano.
Não se pode falar de Manuel Teixeira sem falar do grupo Julu, pois para além se ser co-fundador o mesmo nunca se desvinculou do grupo e tudo quanto alcançou é graças ao trabalho árduo directamente desenvolvido com o grupo teatral Julu.

PROFISSIONALIZAÇÃO DE MANUEL TEIXEIRA

O Teatro em Angola deu os seus primeiros passos antes da independência. Logo após a Independência este movimento artístico foi se intensificando. O JULU é um deles que nasceu e até hoje sobrevive e remunera mensalmente os seus actores tudo graças a apoios institucionais. A transparência tem norteado a unidade do conjunto, todos têm acesso dos contratos que o grupo assina. O grupo JULU trabalha em base de projectos e parcerias.
“Nós não dormimos, cada um é responsável pela manutenção financeira do grupo”, salientou durante a entrevista.
O que nos interessa saber se esses actores que têm no seu curriculum artístico um vasto largo anos de experiência, podem ou não ser considerados profissionais de teatro, tal como é o nosso objecto de pesquisa.
Segundo a UNAC (União Nacional dos Artistas e compositores), no seu regulamento sobre a Carteira Profissional do Artista, capitulo II, no ponto dois do 8º artigo descreve:
“O artista profissional tem de ter, no mínimo, experiência profissional artística publicamente reconhecida e comprovada por uma associação idónea”.
Mas, contudo não descarta-se a importância que uma formação tem no processo da profissionalização do actor, pois a escola é um importante espaço de socialização com o meio profissional.
Segundo a UNAC (União Nacional dos Artistas e compositores), no seu regulamento sobre a Carteira Profissional do Artista, capitulo II, no ponto um do 8º artigo descreve: “O artista profissional é o indivíduo que, exclusiva ou predominantemente, dedica o seu tempo ao exercício da atividades artística, dependendo dela a sua subsistência”.
A remuneração tem sido uma ideia muito mal compreendida no seio artístico, uma coisa é receber em certos momentos remunerações fruto do trabalho realizado e outra coisa é receber um salário mensal, Ou seja, o actor profissional é aquele que vive do que faz. Tal como vive por exemplo Manuel Teixeira.
A pergunta que não quer se calar e gera muitas incertezas é: em Angola é possível viver só da profissão de Actor?
Se sim ou não eu não sei, pois depende de muitos factores, mais uma coisa absorvi dessa pesquisa que em Angola tem actores que vivem exclusivamente do teatro e uma dessas figuras chama-se Manuel Teixeira.
Seu grupo desde 1993 aufere um salário fruto de contrato estabelecido com a UNICEF, no qual foram coordenadores nacionais de teatro comunitário. Onde realizavam formações juntos as comunidades acerca do teatro de intervenção, comunitário. Hoje têm um contrato com a TPA (Televisão Pública de Angola) e com a PGR(Procuradoria Geral da República), onde são assalariados. Para além dessas instituições o grupo semanalmente tem sempre uma agenda preenchida cooperando constantemente com quase todos os ministérios, empresas públicas e instituições privadas.

CONCLUSÃO
Se reconhece um artista através das suas obras. Os seus feitos e a sua trajetória marcaram e ainda no activo Manuel Teixeira tem marcado milhões de angolano. A história do teatro em Angola regista figuras e personagens emblemáticas marcantes e uma dessas personalidades é sem sombras de dúvidas, Manuel Teixeira. Sua imagem e fama foram difundidas com o místico grupo de teatro comunitário “JULU” durante as transmissões de várias campanhas e publicidades emitidas na altura na única estação televisiva do país, a TPA.
Umas das questões que muitos dos alunos do ISART se debate é o seu perfil de saída depois da sua formação, pois muitos não perspetivam um futuro próximo próspero mas a vida de Manuel Teixeira poderá ser um incentivo catalisador na dinâmica de um mercado cada vez mais capitalista.
Durante o desenvolvimento deste trabalho, constatei que o caminho mais viável para a profissionalização do actor requer pelo menos uma formação acadêmica ou técnica; uma experiência considerável e comprovada e ser remunerado pelo exercício da mesma atividade.
Portanto, ainda existe uma esperança no fundo do túnel para os artistas que estão em processo de formação ainda que a luz não tenha dado o ar da sua graça, Manuel Teixeira revelou parte do seu sucesso. “Cada actor do JULU é um potencial em criar e apresentar projectos para as instituições”.







sexta-feira, 25 de maio de 2018

O Teatro em Angola entre 1990 à 2000


 INTRODUÇÃO
O teatro angolano tem sofrido alterações constantes com a contemporaneidade, mas sem perder a sua essência primária e cultural.
Neste presente trabalho não queremos nos focar na actualidade, mas no passado recente, propriamente na década de 90, pois foi a época em que muitos grupos nacionais surgiram fruto das manifestações teatrais verificados nos anos anteriores, nas décadas 70 e 80.
O tema proposto é “O teatro em Angola entre 1990 a 2000”, para podermos a posterior entender as facetas do teatro hoje feito em Angola. Tudo que é feito hoje é fruto de traços carregados do passado para assim entendermos a especificidade do teatro desenvolvido no nosso quotidiano.
O mesmo foi possível com subsídios do livro de teatro de José Mena Abrantes, artigos tirados em alguns sites angolanos na internet e em relatos extraído das entrevistas feitas pelo professor Norberto e do actor Manuel Teixeira do grupo Julu.
 O presente trabalho terá três capítulos, subdividos por tema e subtemas. No primeiro capítulo falaremos dos primórdios do teatro antes dos anos 90. No segundo capítulo falaremos do panorama da década de 90, os grupos criados entre 1990 a 2000, a dramaturgia das obras e suas respectivas características.
No terceiro capítulo falaremos sobre o programa televisivo em cena da televisão pública de Angola transmitida nesse período em questão.
O objectivo primordial deste trabalho é trazer a tona o grande despertamento do teatro em Angola neste periodo em foco, visto que esse periodo é tido como apogeu do teatro em Angola por causa do grande movimento artístico teatral e surgimento de grupos de renomes e obras teatrais eternizadas.
Serve esta introdução para contextualizar que falar de teatro em Angola é quase sinónimo de lamentar a falta de teatro em Angola. Porém, apesar dos pesares, vale a pena fazer um levantamento muito sucinto que dê conta das pontas soltas que têm mantido o teatro angolano vivo nestes 41 anos de Independência e muitos desses elementos surgiram nessa época (1990/2000).

1.    OS PRIMÓRDIOS DO TEATRO ANTES DOS ANOS 90
Do que se conhece, e sabemos que isso pressupõe que o que ficou para a História foi à história dos dominadores, a introdução do teatro em Angola deve-se aos missionários.
No interesse de evangelizar o pagão africano e torná-lo filho de Deus, a igreja sempre se serviu de representações religiosas, realizadas em escolas de missionários cristãos pelo país afora. A Igreja teve um papel de relevo no contacto inicial com o teatro, mantendo, na actualidade, esse forte ascendente sob vários grupos teatrais: só em Luanda são mais de cem os grupos criados ligados a Igrejas. Em outras províncias como, por exemplo, a Huíla, Benguela, Huambo e as demais restantes constatou-se a mesma realidade. O objectivo era ensinar “bons” comportamentos (prevenir o HIV, apelar ao estudo, condenar a violência doméstica, divulgar as tradições), defender valores morais e familiares ou resolver questões existenciais, deste tipo teatro espera-se uma função especializada ou a sua instrumentalização (política e outras) para chegar a determinado fim.
A ligação à Igreja tem-se feito sentir desde o tempo colonial durante a qual, se foram desenvolvendo diversas expressões teatrais, tal como, por exemplo, o teatro comunitário por causa da situação política que o país mergulhava.
No mesmo diapasão dos grupos que surgiram fruto das denominações religiosas é disso exemplo o Colectivo Miragens Teatro, fundado em 1995 numa comunidade religiosa (São Luís), no Bairro Rangel, uma das periferias de Luanda. O outro exemplo é do grupo teatral JULU, fundado em 1992 que deriva da junção de dois amigos e colegas de teatro falecidos (Julião e Lucas), com fortes influências da Paróquia São Domingos da Igreja Católica Nossa Senhora de Fátima. Com Mateus Lourenço, Manuel Teixeira, Vado Baptista e o Francisco Isidro como fundadores e sempre sob supervisão de uma madre espanhola de nome Aurora Canale da mesma paróquia.
Nesta época o movimento foi crescendo em nível de formação de grupos (quantidade), números de fazedores (actores, actrizes e encenadores) e certa característica peculiar (qualidade) nalgumas obras criadas e representadas naquela altura.
2.    O PANORAMA DOS ANOS 90
Depois de um movimento teatral entre iniciativas quer por parte do estado quer por privados e singulares, verificado depois da independência, que culminou com a criação de três grandes grupos de teatro que até hoje dão o seu contributo pra o desenvolvimento de teatro angolano. Nomeadamente os grupos Horizonte Njinga Mbande (1986), Oásis(1988) Elinga Teatro (1988).
Em 1989 realizou-se o primeiro concurso de teatro nacional dentro das festividades do primeiro festival nacional de cultura (FENACULT), realizado na província de Benguela no mês de Agosto, no qual os grupos Makotes, Oásis e o Njinga Mbande foram classificados, respectivamente, em primeiro, segundo e terceiro lugar.
Essas manifestações artísticas e outras tentativas e iniciativas anteriores deram os primeiros passos da grande corrente teatral verificado na década de 90 a nível nacional. Muitos, se não todos, consideram a década de 90 como o apogeu do teatro angolano, que foi se proliferando em todas as províncias de Angola.
O teatro feito nessa época, foi bastante relevante como fenómeno cultural, pois foi uma grande plataforma unificadora de tendências artísticas no país. Uma síntese artística do teatro feito neste período é se, sombra de dúvidas a transformação de consciência, dos modos de comportamento e da comunhão social do povo angolano.
Nesse período houve por parte do Ministério da cultura e outras entidades privadas iniciativas de seminários e formações aos grupos de teatro, o que proporcionou aos grupos uma certa organicidade e estrutura interna. Na altura só em Luanda a cifra dos grupos cada vez mais aumentava atingindo um número de mais de 200 grupos de teatro.
2.1.        OS GRUPOS CRIADOS NA DÉCADA DE 90 E SEUS FUNDADORES
Os anos 90 vem proliferar de novo uma infinidade de grupos, uns de curta duração e outros que têm conseguido afirmar-se no panorama cénico da capital e manter uma certa continuidade na apresentação de espectáculos.
São grupos em grande parte surgidos a sombra de igrejas e instituições religiosas de diversas confissões (católicas, evangélicas, kimbanguistas, etc.).
Entre os mais destacados estão os grupos JULU (1992), dirigido por Loureço Mateus (em memória) e tornado profissional com o apoio da UNICEF, Etu-Lene (1993), dirigido na época por Elisabeth Victória e actualmente dirigido por Beto Cassua, o Coletivo Miragens Teatro (1995), o Pérola Real (1994), que ganhou o primeiro lugar num concurso de comédias organizado pela Associação Angolana de Teatro para infância e a Juventude (ASSATIJ).
Ao mesmo tempo outros grupos foram surgindo dando dinamismo ao movimento como: Mukengenji ia Mundo (1992), Tudizole (1992), Lumière(1993) dirigido por Luís Culaia e Tito da Graça Caculo “ Kiambill Byron”, a Mais Um(1994), Caminheiros Negros de Emaús(1995), Tujingenji (1995), Grupo Experimental do INFAC(1995), Nguizane Tuxicane (1996), Nova Cena, dirigido por Armando Rosa (1993), Kulonga Teatro (1998), que significa ensinar fundando por Afonso Fernandes “Zamunda” etc...
Desde então, na conjuntura difícil e prolongada da guerra civil, inacessibilidade e recursos nulos, foram poucos, mas resistentes, os grupos que conseguiram manter a actividade, apresentando espectáculos, incentivando acções de formação e procurando, sempre que possível, o intercâmbio internacional. A maioria são empreendedores e de bairros periféricos, encenavam a si próprios sem meios técnicos nem formação, com um imenso voluntarismo.
2.2.        CARACTERÍSTICAS DAS OBRAS
O que se verifica hoje é o reflexo do passado. Toda a problemática do teatro da década de 90 contribuiu na sua poética artística. Tal como a falta de uma política oficial para o desenvolvimento do teatro; a falta de escola de arte e de programas e iniciativas por parte do governo que visam incentivar o profissionalismo teatral; a falta de salas de teatro e de facilidades de acesso às poucas existentes, a falta de projectos de organização do movimento teatral amador junto dos estabelecimentos escolares, empresas, organismos e bairros; a falta de dedicação por parte da UNAC na defesa dos interesses do teatro naquela época fez nascer muitos artistas “aventureiros” no bom sentido claro.
Os grupos mais conhecidos foram se consolidando e tornando mais regulares as suas actividades, novos grupos e novas iniciativas foram surgindo, aumentou o número de pessoas interessadas em fazer teatro e melhorou de um modo geral a qualidade média dos espectáculos levados a público.
Portanto, as características gerais dos espetáculos apresentados na época mostravam uma regularidade como exposição frontal dos conflitos dramáticos, com nulo aproveitamento das potencialidades do espaço cénico, quer em altura quer em profundidade. Outra característica era a iluminação quase que não sofria alteração ou não tinha nenhuma função dramática. Outro item interessante nas encenações e representações das obras era o fundo do cenário com recurso frequente a cartazes e panos pintados que nunca saiam de cena identificando o grupo, o título da obra ou apresentava uma síntese gráfica da acção representada.
Outro aspecto importante era a atuação natural e cómica exageradamente, era o típico da maioria dos personagens da época. O fraco apoio sonoro quer ao vivo quer gravado, com agravante das poucas músicas e danças utilizadas serem meramente decorativas, sem cumprirem qualquer função dramática evidente.
As características do teor das obras cingiam-se em: Manobras do feitiço; Críticas aos poderosos; À delinquência juvenil; Violência doméstica; Alcoolismo; Droga e outros problemas de âmbito  social, insistindo-se quase sempre nos mesmos temas.
Este é o tipo de enfoque dos grupos da maior parte do panorama na altura. Sem meios técnicos nem formação, mostravam uma impressionante persistência em fazer teatro mas, na falta de referências, o desconhecimento da história universal do teatro, o facto de não terem estudado ou raramente poderem assistir a outro tipo de peças, os modelos ficam numa espiral que os impossibilitava sair daquele conflito de conhecimento do que se fazia.
As mesmas técnicas, personagens-tipo e fórmulas de sucesso repetem-se até à exaustão. Muitas vezes são os próprios que escrevem os seus textos dramáticos, viviam muito da improvisação e da auto-encenação, quase sem cenários e sem obedecer às mínimas convenções teatrais de tempo e espaço.
O gênero que mais se destacava era a comédia, o não rir significava insuficiência e fracasso da obra. Os personagens usavam gestos expressivos, caracterização debilitada e linguagem cantada.
Nos meados da década de 90 verificava-se um crescimento a nível de teatro e uma reorganização dos grupos existentes. Em 1993 deu-se os primeiros passos para implementação do Instituto Nacional de Formação Artística. Os grupos uniram-se e a cooperação com a cultura se solidificava. Já se promovia formações e seminários de grande impacto cultural tal como o seminário de teatro com mais de 200 grupos de teatro com junção da dança no espaço Elinga com duração de três meses propriamente em 1994.
As associações foram surgindo tal como a ASSATIJ coordenada pela Dr.ª Agnela Barros e outras parcerias com outras associações como aliança Francesa e Associação Angolana de Livros coordenada por Ana Faria.
Em 1995 começava a grande formação de teatro pela Escola Nacional de Teatro onde passaram alunos como Avelino Dikota e o Afonso Fernandes “zamunda” que durou sensivelmente 4 anos.
Depois desse ganho em termos de formação a que destacar que o primeiro espetáculo académico foi apresentado nesta década em Angola em fevereiro de 1996, intitulada “Humanidade!” um género (filo-drama) criado e dirigido por professor Norberto que passou a ser exibida pela TPA por mais de um ano.
Neste mesmo período os laços de cooperação e união entre os grupos já se fazia sentir onde acordos e memorandos tal como o memorando para a revitalização do teatro e outras artes em Angola. Esses esforços contribuíram de uma forma significante para o teatro que culminou com a implementação da redinamização do Festival Nacional de Teatro, a intrusão na premiação Nacional de Cultura e Artes.
No mesmo diapasão já se aprofundava as problemáticas do fundo de apoio aos artistas e a solidificação da Lei do Mecenato tudo para engrandecer e valorização do artista de teatro.
3.    NO FINAL DA DÉCADA DE 90
No final deste período propriamente nos anos de 1997 e 1999, existiu uma imensa proliferação de grupos que se apresentavam quase diariamente. O entusiasmo e vontade de fazer teatro, em salas improvisadas e clubes de bairro, eram notáveis. Foi assim que nasce um projeto artístico, que possibilitou representações de teatro constantes todas as quintas feiras no teatro avenida promovida pelo ministério da cultura devido algumas dificuldades notadas pelo ministério, propriamente secção da acção cultural coordenado pelo Manuel Sebastião, convidou os artistas (teatro, danças…) entre eles, o professor Sacaneno (dança), Matan`yadi Norberto, Quim Alves, Walter Cristóvão, Adelino Caracol (teatro) para a implementação do mesmo. Começava uma nova era. Os grupos recebiam um certo apoio institucional por parte da cultura onde seminários, formações, prémios, concursos de teatro e intercâmbios com oradores estrangeiros ganhavam forças. 
Em fevereiro de 1999, fruto do impacto desse surge assim a parceria com a Televisão Pública de Angola, denominado “Em cena”, coordenado pelo professor Norberto, António de Oliveira " Délon" por parte do ministério da cultura e com a realização do Tomás Ferreira por parte da TPA. As obras mais marcantes durante essas transmissões foram: “Cassinda não volta atrás”, do grupo teatral Nguizane Tuxicane e o “feiticeiro e o inteligente” do grupo teatral Etu-Lene. Os grupos uniram-se e um laço saudável com o ministério da cultura florescia. Mas durante esse período começava a verificar-se uma certa rivalidade não saudável por parte dos grupos na ânsia da  divulgação das Mídias.
                                                       CONCLUSÃO
A conclusão óbvia e irrecusável do teatro feito entre 1990 á 2000 é a sua manifestação primária e uma fragilidade nas suas representações, não indo quase nunca além de boas intenções e de um espírito marcadamente amadorístico e artesanal.
  Não se pode falar de teatro em Angola, sem falar desta magnífica época dourada do teatro angolano. Período esse que é considerado o momento do “bum”  do teatro feito no nosso país. Muitos grupos hoje nas suas formas de dramatização ainda acarretam traços e características das obras representadas nesta época e há ainda grupos que nasceram nesta década que continuam com a mesma tendência de representação como por exemplo o grupo Etu Lene, dirigido por Beto Cassua.
Portanto é ainda visível ver espetáculos nas salas do nosso país com tipicidade e características oriundas da década de 90, as temáticas passavam pelo misticismo, feitiçaria, delinquências, aborto, violência doméstica e tantos outros factores que acontecem nos dias de hoje.
Na senda do teatro angolano muitos grupos dos “90” já atingiram níveis que permitiram a sua participação em eventos importantes a nível internacional, como por exemplo o grupo o grupo Miragens, Enigma, Henriques Artes e tanto outros...
 Concluimos também que não podemos falar do teatro angolano entre 1990 à 2000 sem falar da trajetória dos grandes actores e directores que deram o ar da sua graça com tanto sacrifício a fim de alavancar a mesma arte nesta época. Tal como: Roldão Ferreira, José Mena Abrantes, António de Oliveira " Délon", Ana Paula Victor, Artimísia Lemos, Sebastião Figueira, Nowa Wete, Carlos Dias, Salvador Freire, David Mendes, Armando Rosa, Adelino Caracol, Púlqueira Van-Dúnem, Africano Cangombe, Avelino Dikota, Quim Alves, Correia Domingos, Correira Azevedo Zulmira, Afonso Fernandes Lourenço (Zamunda) e Agnela Barros fazem parte da história do teatro em Angola principalmente neste periodo em questão. Cada um contribuiu à sua maneira para que o teatro angolano chegasse ao seu momento actual e muitos deles, até hoje dão o seu contributo para o engrandecimento da arte de representação em Angola.
BIBLIOGRAFIAS 
Abrantes, José Mena, o teatro em Angola, 1º volume, 1ª ed, Ed. Nzila, 2005
https://www.voaportugues.com/a/article-10-07-11
http://jornalcultura.sapo.ao/artes/teatro-cada-vez-mais-angolano/
http://www.buala.org/pt/palcos/teatro-em-angola-uma-brevissima-sintese

                     Foto 1: Manuel Teixeira ( à esquerda) um dos fundadores do grupo teatral Julu em 1992 e Nelson Ndongala, estudante de teatro  (à direita).


TUDO SOBRE TEATRO

ROMEU E JULIETA NO CENTRO DE CONFERÊNCIAS DE BELAS É JÁ NO DIA 23 DE JUNHO

Um dia: 23 de Junho Um Lugar: Centro de Conferências de Belas Um grupo: Zambâmbio Uma obra: Romeu e Julieta Um preço: 1.500 Kz compre...

ARTIGOS MAIS VISTOS